Homenagem - Vilmar Faria

2019-11-29

Homenagem a Vilmar Faria

Há exatos 18 anos, no dia 28 de novembro de 2001, Vilmar Faria nos deixava, vítima de um aneurisma, aos 59 anos. Professor da Unicamp e pesquisador do Cebrap, estava em pleno exercício de suas atividades profissionais como Assessor Especial da Presidência da República do governo Fernando Henrique Cardoso. 

Minha vida se entrelaçou com a de Vilmar em vários momentos. Eu o conheci no Cedeplar/UFMG em 1990 quando, recém-formada em Ciências Econômicas e aguardando a próxima rodada de inscrições para o mestrado em Demografia, cursei, como disciplina isolada, “Políticas Populacionais”, ministrada por ele e Joe Potter. Três anos depois, quando Vilmar estava recém operado e em vias de começar seu termo como Tinker Professor na University of Texas at Austin, coube a mim, aluna do primeiro ano do doutorado em Sociologia/Demografia daquela universidade, a honra de morar na casa dele e da Regina durante cerca de 2 meses, até que ele estivesse bem o suficiente para voltar a dirigir. Minha tese de doutorado, defendida em 1997 e desenvolvida no âmbito do projeto “O impacto social da televisão sobre o comportamento reprodutivo no Brasil”, idealizado por ele, Joe Potter e Elza Berquó, entre outros, me conectou academicamente ao Vilmar de forma definitiva. Finalmente, em 2011, já como vice-diretora da Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG, onde Vilmar fez sua graduação em Sociologia, Política e Administração Pública, recebi, em nome da Biblioteca da FACE, a doação de cerca de 3.500 exemplares da biblioteca particular do Vilmar, feita por Regina e a filha deles, Marcella.

Hoje, como editora da Revista Brasileira de Estudos de População, gostaria de homenagear Vilmar Faria pelo legado que ele deixou para a Demografia. Entre as muitas contribuições, destaco aquela que é mais afeita à minha trajetória, o artigo “Políticas de governo e regulação da fecundidade: consequências não antecipadas e efeitos perversos”, de 1989, publicado não na Rebep, mas no periódico Ciências Sociais Hoje, da ANPOCS. Fundamental para a compreensão da transição da fecundidade no Brasil, é leitura obrigatória em qualquer curso sobre o tema, incluindo o meu.  

Para celebrar Vilmar Faria, convidei três abepianos para que escrevessem sobre ele. Tenho o prazer de apresentar os textos de Elza Berquó, Paulo Paiva e Fausto Brito, a quem agradeço por compartilharem conosco um pouquinho sobre o muito que Vilmar fez e foi. Boa leitura! 

Paula Miranda-Ribeiro, Editora da Rebep 2019-2020

 

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Conheci Vilmar Faria quando, por convite de Fernando Henrique Cardoso, veio integrar o grupo de pesquisadores do Cebrap. Mente brilhante e privilegiada, com sólida formação em Ciências Sociais, passou a participar de vários dos estudos que ocorriam na casa, ainda na rua Bahia. Cauteloso, como bom mineiro, em pouco tempo já se fazia ouvir e opinar no famoso “mesão”.

Nesta justa homenagem que lhe presta a nossa Rebep não cederei à tentação de apresentar um relato curricular da brilhante carreira do sempre querido Vilmar, que tão cedo nos deixou. Muitas foram suas contribuições na área dos estudos populacionais, mas gostaria de destacar aqui duas delas, em especial.

Pesquisa Nacional de População Humana e Declínio da Fecundidade a partir dos anos de 1960.  

A Pesquisa Nacional de Reprodução Humana, a primeira da instituição, concebida a partir de 1970 e concluída em 1975, resultou de um esforço teórico-metodológico de uma equipe multidisciplinar que se propôs investigar as relações entre o comportamento reprodutivo, as diversas formas de organização da produção e o papel ideológico das instituições sociais presentes naquele período. Essa pesquisa inovou ao romper com paradigmas anteriores que viam as diferenças no comportamento reprodutivo dos indivíduos como decorrentes apenas de suas características sociais e econômicas. Ou seja, ela significou uma ruptura com os estudos de fecundidade até então realizado na América Latina. Dentro dessa perspectiva Vilmar Faria teve papel fundamental, destacando sua criatividade na construção das tipologias de contextos brasileiros, principalmente de áreas urbanas.

Declínio da Fecundidade a partir dos anos 1960.

Muitas foram as análises explicativas para tentar dar conta do declínio da fecundidade no país, a partir de 1960, após um período de longa estabilidade em torno de 6.2 filhos por mulher. Vale lembrar que no período de 1940-1960 mais de 60% da população viviam em áreas rurais; maior parte dos partos ocorriam nos domicílios; as taxas brutas de mortalidade eram muito elevadas, ou seja, a expectativa de vida ao nascer era de 38 anos no Nordeste e de 50 anos no Sul; a mortalidade infantil era de 150 e de 120 óbitos de menores de 1 ano para mil nascidos vivos respectivamente, em 1940 e 1960; a mortalidade materna girava em torno de 300 óbitos maternos por cem mil nascidos vivos; e a regulação da fecundidade só dispunha da abstinência e do coito interrompido. A partir de 1970 o país vai-se urbanizando com 56% da população morando em cidades; a pílula anticonceptiva surge em 1965, embora até 1979 fosse proibido fazer propaganda sobre anticoncepcionais. Neste cenário, chamava a atenção o declínio significativo de 24% da taxa de fecundidade total.

Destaca-se, neste sentido o trabalho de Vilmar Faria[1] que ao estudar as políticas governamentais de benefícios previdenciários, de saúde, de crédito ao consumidor e de telecomunicações no período de 1960-1985 mostrou que, embora essas políticas não tivessem sido formuladas no sentido da demanda por regulação da fecundidade, acabaram por ter efeitos sobre ela e, consequentemente, sobre a redução da fecundidade.

Elza Berquó

[1] Faria, Vilmar Evangelista. “Políticas de governo e regulação da fecundidade: consequências não antecipadas e efeitos perversos”. In: Ciências Sociais Hoje. São Paulo, Vértice/ANPOCS, 1989. 

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Desta vez ele não chegou

Era uma manhã fria de outono em Washington, quando meu telefone tocou, eu não podia imaginar o que iria ouvir em seguida. Antônio Anastasia dar-me-ia a triste notícia da morte de Vilmar Faria, naquela madrugada quente lá em Brasília. Por alguns minutos, fiquei mudo. Havíamos conversado dias antes. Ele chegaria a DC no final de semana. Em casa estávamos prontos para recebê-lo, mas desta vez ele não chegou.

Vilmar não foi meu colega de faculdade. Ele e Regina foram colegas de Clotilde, minha esposa, na FACE/UFMG. Éramos, sim, colegas no movimento estudantil. Militamos na mesma organização (AP). No início dos anos sessenta, compartilhamos os mesmos sonhos, sofremos as mesmas decepções e quis o destino nos manter sempre próximos vida afora.

A primeira vez que Vilmar chegou foi nos idos de 63, em Juiz de Fora, me ligou dizendo que queria falar comigo e dirigiu-se àquela cidade, onde eu estudava. Com sua voz mansa e seu estilo cauteloso me inqueriu sobre minha participação no Congresso da UEE, em Ouro Preto, no mês de outubro. Afirmou que seria importante minha presença liderando a bancada da JUC de Juiz de Fora. Pois bem, sua estratégia era, com fez, no ambiente de Ouro Preto me convencer a ser o candidato da frente de esquerda à presidência da UEE. Esse era o Vilmar político, com a habilidade, a suavidade e a candura de um sedutor. A esquerda conquistou a UEE de Minas que, até então, era o baluarte da resistência da direita no movimento estudantil.

A revolução de 64 nos separou. Vilmar foi para o Chile. De lá conquistou seu PhD em Harvard, voltando depois para o Brasil e para o CEBRAP. Naqueles anos incertos, estudei no CEDIP, onde conheci Elza Berquó, Paulo Singer, Cândido Procópio e tantos outros cientistas sociais, e iniciei meus estudos em demografia, concluídos na Universidade da Pensilvânia nos anos setenta.

Voltamos a nos encontrar com frequência nos anos oitenta, quando CEBRAP e CEDEPLAR construíram fortes laços de pesquisa no campo dos estudos populacionais. Pude conhecer, agora, o Vilmar acadêmico, com sólida formação teórica e quantitativa. Nossos interesses acadêmicos comuns - analisar os desequilíbrios no mercado de trabalho e buscar explicações para a queda da fecundidade no Brasil – nos aproximaram novamente.

Fui o primeiro a me afastar da academia, quando iniciei minha carreira pública, como secretário de Planejamento do Estado de Minas Gerais, no início dos anos noventa. Eleito Presidência da República, Fernando Henrique me convidou para participar de sua equipe. Vilmar estaria com ele em Brasília.

A segunda vez que Vilmar chegou foi para almoçar em minha casa, em Belo Horizonte, em um domingo de dezembro de 1994. Conversa descontraída, falamos muito de política e dos desafios do novo governo. Nada foi falado sobre minha tarefa no próximo governo. Mais tarde pude entender que Vilmar foi lá para me convencer a aceitar dirigir a pasta do Trabalho. Era o mesmo Vilmar, político hábil, cauteloso e convincente, como aquele jovem estudante que fora a Juiz de Fora, em 1963.

No governo sempre exibiu seu modo simples, discreto e eficiente de fazer política e esteve coerente às suas convicções acadêmicas sobre a execução de políticas sociais que pudessem conciliar inclusão e progresso. Viveu fiel aos seus sonhos da juventude.

Paulo Paiva

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Agradeço o convite da REBEP para escrever sobre Vilmar Faria. Poucas pessoas - realmente raras - possibilitaram tamanho consenso quanto às suas virtudes, especialmente, a seriedade acadêmica e científica e a sobriedade na política. No meu primeiro contato com ele, eu era ainda um adolescente envolvido na militância junto com outros secundaristas. Já o conhecia de nome e, por este motivo, aceitei imediatamente o convite que me foi feito para assistir uma conferência sua sobre o socialismo na então Iugoslávia. Se não me falha a memória foi em 1963, no Sindicato dos Bancários, perto do antigo prédio da Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG, onde ele estudava, e tempo depois, já nos anos setenta, fui trabalhar no CEDEPLAR. Assisti com ouvidos atentos à sua cuidadosa análise das particularidades de um país comandado pelo Marechal Josip Broz Tito. Ele, mais velho, falava com a propriedade de um mestre; eu, ainda um garoto, ouvia com a atenção de alguém ávido pela compreensão do mundo. Ambos queríamos transformá-lo: esta foi a nossa primeira sintonia.

Não me encontrei pessoalmente com o Vilmar muitas vezes, neste período. Contudo, nos víamos sempre. Em Belo Horizonte, as esquerdas, nos seus mais diferentes matizes ideológicos, se encontravam, sempre, no final da tarde, no adro em frente à Igreja de São José, bem no centro da cidade. Era o chamado “Chá das Seis”, que não tinha chá, mas sim muita conversa. Às vezes, vinho, porém somente para alguns da esquerda católica, que aproveitavam para assistir à missa das seis na Igreja. Era uma experiência notável, onde conversávamos sobre o mundo que sonhávamos construir, combinávamos ações políticas e, claro, desenvolvíamos amizades e namoros.

Vilmar era uma referência na Ação Popular, grupo político que se iniciou na chamada esquerda católica e que depois se transformou em uma organização independente da Igreja e com enorme influência sobre o movimento estudantil e sindical e sobre a política brasileira de um modo geral. Eu, como um mero militante, e Vilmar, como um dos grandes articuladores da Ação Popular, tínhamos uma afinidade determinada pela participação em um mesmo grupo político.

Depois do golpe de 1964, Vilmar foi para o Chile e dele tinha somente raras notícias. Foi fazer o seu mestrado na Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (FLACSO), patrocinada pela UNESCO. Era o templo da abordagem funcionalista nas Ciências Sociais. Lá, contavam nossos amigos comuns, era o aluno brilhante distante das ortodoxias e próximo do debate e do pluralismo teórico. Era versátil, multidisciplinar e, como poucos cientistas sociais na época, um profundo conhecedor dos métodos quantitativos. Gláucio Dillon Soares, que foi diretor da FLACSO e seu professor, não teve dúvida em afirmar: “Tive milhares de alunos em minha vida, muitos verdadeiramente excepcionais. Vilmar foi o melhor”. Quem esperava o retorno ao Brasil de um paladino do funcionalismo encontrou nele a sua marca de sempre: ojeriza à ortodoxia, abertura para as diferentes contribuições teóricas e a procura de uma síntese que atendesse o rigor necessário às Ciências Sociais e o indispensável vínculo com a compreensão e a transformação do mundo.

Em 1969, quando me formei em Sociologia pela Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG, não havia mais o curso de Sociologia na Faculdade de Ciências Econômicas onde ele estudara, Vilmar veio ao Brasil e conversamos sobre a possibilidade de que eu fizesse o mestrado na FLACSO. Fiquei impressionado com a sua sinceridade quando abordou a realidade, naquele momento, da Faculdade da UNESCO no Chile. Acabei optando pela permanência no Brasil, pois desejava caminhar na direção das Ciências Econômicas ou de algo próximo, como a Demografia.

Vilmar foi para Harvard fazer o seu doutorado com a orientação sociólogo Gino Germani, também um funcionalista. Para Vilmar a sua relevância era tão importante quanto a de Manuel Castells, o sociólogo francês, um dos seus principais interlocutores desde Santiago do Chile. Na minha vida acadêmica, na Sociologia e na Demografia, Vilmar passou a ser uma bibliografia imprescindível. Com entusiasmo, acompanhei de perto a sua profícua produção, em parte decorrente da sua tese defendida em Harvard, em 1976: “Occupattional marginality, employment and poverty in urban Brazil”.

As questões urbanas ocuparam um lugar proeminente nos seus artigos que, com certeza, se transformaram em indispensáveis para a compreensão do Brasil. Não tenho a pretensão de avaliar a sua extensa bibliografia, até porque não me foi solicitado e o espaço que disponho é breve. A compreensão teórica de alguns problemas pesquisados pelos demógrafos, em boa parte, é devida a Vilmar Faria. Vou me referir a somente um texto, consensualmente clássico: “Políticas de governo e regulação da fecundidade: consequências não antecipadas e efeitos perversos”, publicado no Brasil pela revista Ciências Sociais Hoje, da ANPOCS, em 1989. Sem ele as explicações sobre o acelerado declínio da fecundidade no Brasil estariam, até hoje, devendo uma maior robustez teórica.

Caminhos distintos na academia, e na política, implicaram em uma certa distância, mas alguns encontros no CEBRAP e as conversas com amigos comuns mantiveram a convivência. Em 1990, quando fazia o meu doutorado em Demografia no CEDEPLAR-UFMG, tive uma oportunidade muito importante: fui seu aluno na disciplina de Políticas Populacionais, curso que ele ministrava em conjunto com Joseph Potter da Universidade do Texas. Certamente, Vilmar era o cientista social brasileiro melhor preparado, não só nas teorias sobre políticas públicas, mas também nas análises dos mais diferentes estudos de casos. Ele repetiu o curso com um novo título, Políticas Públicas e Dinâmica Demográfica, em 1996 e 1998. E, então, tive uma experiência ímpar, dividir com ele o magistério.

Nestes últimos períodos no CEDEPLAR, Vilmar dava aulas e, simultaneamente, era o Secretário de Coordenação da Câmara de Política Social da Presidência no Governo Fernando Henrique Cardoso. Transmitia para os alunos, e para mim, os seus grandes projetos para as políticas sociais no Brasil. Foi uma experiência inesquecível, tínhamos discordâncias quanto ao governo do qual ele participava, mas o seu espírito público e a nossa vontade, que dividíamos há tempos, de mudar o mundo ampliou a amizade e a admiração por Vilmar.

Fausto Brito