Empregadas domésticas e cuidadoras profissionais: compartilhando as fronteiras da precariedade

Palavras-chave: Emprego doméstico. Cuidado. Cuidadoras. Mercado de trabalho

Resumo

Há considerável fluidez na fronteira entre a atuação das empregadas domésticas e as atribuições exercidas pelas cuidadoras profissionais. Mas o quão distintas são estas categorias ocupacionais em relação ao seu perfil socioeconômico? Ao longo deste artigo, com base nos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), buscamos responder se, durante o período 2002-2015, esses dois grupos apresentaram maiores aproximações ou inflexões em suas características. A partir de cinco dimensões analíticas – características individuais, condições de trabalho, grau de proteção trabalhista e social, situação domiciliar e isolamento/pertencimento –, as estatísticas apresentadas neste trabalho sugerem uma aproximação ao longo dos anos entre o perfil das trabalhadoras domésticas e o das profissionais de cuidado. Essa afirmação é válida para praticamente todos os indicadores analisados. Ambas as ocupações são marcadas pela precariedade no trabalho: combinam baixo nível de remuneração e de proteção social com alta carga horária de trabalho remunerado, somada a extensas jornadas não remuneradas. Ademais, ambas atividades são majoritariamente exercidas por mulheres pretas e pardas. Singularmente, a escolaridade é a única característica socioeconômica que de fato diferencia os dois grupos, consideravelmente mais alta para as cuidadoras.

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Biografia do Autor

Graciele Pereira Guedes, UFF

Graciele Pereira Guedes é doutoranda em Economia do programa de Pós-Graduação em Economia da UFF (PPGE/UFF) e mestre pelo PPGE/UFF.

Elisa Monçores, UFRRJ e UFF

Elisa Monçores é professora em regime de dedicação exclusiva da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e doutoranda do Programa de Pós-graduação em Economia da Universidade Federal Fluminense (PPGE/UFF)

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Publicado
2019-10-14
Como Citar
Guedes, G. P., & Monçores, E. (2019). Empregadas domésticas e cuidadoras profissionais: compartilhando as fronteiras da precariedade. Revista Brasileira De Estudos De População, 36, 1-24. https://doi.org/10.20947/S0102-3098a0083
Seção
Artigos originais